As empresas mais inovadoras do mundo estão repensando a forma de medir o desempenho. Em vez de focar em números de produção ou quantidade de entregas, passaram a adotar indicadores que avaliam o impacto real das iniciativas, como valor gerado para o negócio, eficiência alcançada e resultados no mercado.
> Quer receber as principais notícias do Colatina em Ação no WhatsApp? Clique aqui e entre na nossa comunidade!
Segundo dados da FounderNest, houve uma queda de 7% no uso de métricas baseadas em patentes e propriedade intelectual desde 2015, sinalizando uma mudança de foco da invenção defensiva para a comercialização e resultados.
Essa transição não é uniforme. Enquanto 60% das organizações globais já medem resultados finais (outcomes), apenas 35% rastreiam métricas de estágio inicial, como volume de ideias ou projetos. A ausência de um sistema para indicadores de desempenho estruturado compromete essa mensuração.
No Brasil, o cenário é mais desafiador: apenas 1% das empresas adotam as melhores práticas globais de investimento e mensuração de impacto, segundo estudo da McKinsey & Company em parceria com a Associação Brasileira de Anunciantes.
“O principal desafio ao redefinir indicadores é sair da lógica de volume e passar a medir o que realmente gera valor para o negócio”, afirma o engenheiro e sócio da Nomus, Thiago Leão. “Muitas empresas ainda enfrentam dificuldades como dados dispersos, métricas desconectadas da estratégia e pouca confiabilidade das informações.”
81% dos líderes globais medem transformação digital
Para especialistas como Leão, a mensuração de business outputs – as entregas tangíveis, como funcionalidades lançadas ou workshops realizados – é um indicador de eficiência, enquanto a de business outcomes – o impacto real gerado, como aumento de receita ou resolução efetiva de problemas do cliente – é de eficácia. Em geral, as equipes tendem a permanecer na primeira opção porque medir entregas é mais simples do que avaliar quais valores foram criados.
A Deloitte mapeou que 81% dos líderes globais usam a produtividade como principal medida de retorno sobre investimento em transformação digital, focando em volume e eficiência operacional. Líderes que adotam mentalidade holística, integrando categorias financeiras, de cliente, processos e pessoas, têm 20% mais chances de atribuir alto valor empresarial às transformações.
No Brasil, a pressão econômica intensifica a preferência por métricas de curto prazo. Pesquisa da EY identificou que 59% das empresas brasileiras focam em melhoria da produtividade de pessoal, e 44% priorizaram a redução de custos. Por outro lados, o lançamento de novos produtos e serviços perdeu espaço na agenda dos executivos.
Fragmentação de dados e falta de talentos travam mudança no Brasil
A maioria das empresas ainda enfrenta barreiras, apesar dos benefícios. A Deloitte identificou que 73% dos líderes apontam incapacidade de definir impactos ou métricas exatas como principal obstáculo para medir o valor da transformação digital. A incapacidade de coletar dados e a existência de silos organizacionais completam as três barreiras estruturais.
Para as empresas brasileiras, a maior dificuldade é a escassez de talentos qualificados em digital e analytics. No país, 77% das companhias possuem integração parcial ou não têm seus dados interligados, segundo a McKinsey. A adoção de um sistema de gestão ERP poderia mitigar parte dessa fragmentação, facilitando a migração para métricas de valor. Apenas duas em cada dez empresas utilizam ferramentas digitais e mensuram resultados apropriadamente.
Existe, ainda, o fenômeno da “sobrecarga de KPIs”, em que 41% dos colaboradores relatam que o excesso de métricas prejudica a criatividade e a experimentação, segundo a FounderNest. Além disso, 68% das falhas de inovação são atribuídas ao mau alinhamento desses indicadores.
Plataformas digitais rastreiam 4,7 vezes mais métricas
Plataformas de análise baseadas em nuvem permitem que empresas rastreiem 4,7 vezes mais métricas de inovação que sistemas manuais ou planilhas, segundo a FounderNest. A infraestrutura da chamada “Internet das Coisas” aumentou em 92% os fluxos de dados de inovação em tempo real.
O uso de aprendizado de máquina para otimização de indicadores cresceu de 3% há uma década para 42% das equipes de inovação atualmente. No setor de alta tecnologia, 78% das empresas adotam KPIs preditivos baseados em Inteligência Artificial (IA); em 2015, o percentual era 2%.
“A tecnologia de gestão de KPIs ajuda a superar essas barreiras ao integrar dados, padronizar indicadores e permitir análises mais profundas sobre eficiência, impacto e resultados”, explica Leão. “Com isso, os indicadores deixam de ser apenas números e passam a orientar decisões mais estratégicas e consistentes.”
A EY registrou que a IA generativa saltou de 56% para 78% em relevância nas agendas corporativas brasileiras. O rastreamento de métricas em tempo real aumentou 150%, de 12% para 42% de adoção, impulsionado pela infraestrutura digital que permite um acompanhamento dinâmico.
Sistemas formais de KPI geram retorno 2,1 vezes maior
A pesquisa da FounderNest também identificou uma correlação direta entre sistemas formais de indicadores e resultados financeiros. Empresas que utilizam estrutura de KPIs de inovação alcançam retorno sobre investimento 2,1 vezes maior do que aquelas sem sistema.
O uso de múltiplos indicadores também acelera o tempo de colocação no mercado (time-to-market) em 38%. Atualmente, 79% dos conselhos de administração requerem revisões trimestrais de KPIs de inovação, um salto em relação aos 31% registrados em 2015.
Bancos e varejo à frente na transformação digital
No Brasil, o segmento de serviços financeiros apresenta a maior maturidade digital, com 82% das empresas apresentando notas acima da média nacional no uso de modelos analíticos e métricas de valor, conforme a McKinsey. O varejo ocupa a segunda posição com 62% das empresas acima da média nesse quesito.
Em contrapartida, o setor de indústrias avançadas demonstra maior resistência, concentrando 77% das empresas nos estágios “iniciante” e “emergente” de maturidade digital. Esse setor enfrenta desafios, sobretudo, na adoção de foco no cliente e na agilidade organizacional.




