Leilão LRCAP nº 02 contrata 19 mil MW em leilão histórico para reserva energética do Brasil
Certame reuniu usinas hidrelétricas e termelétricas (gás e carvão); fornecimento varia entre 10 e 15 anos e governo afirma que o problema de potência está resolvido
O leilão LRCAP nº 02, realizado nesta quarta-feira em São Paulo, resultou na contratação de 19 mil megawatts (MW) de capacidade de reserva para o sistema elétrico brasileiro — uma operação descrita pelas autoridades como a maior contratação de térmicas da história do país. O montante soma ofertas de usinas hidrelétricas e termelétricas movidas a gás natural e carvão mineral, cuja função é abastecer o sistema quando as hidrelétricas não conseguem suprir a demanda.
Contexto e importância
Segundo o Ministério de Minas e Energia, o leilão representa um marco para a segurança energética do Brasil para a próxima década. O ministro Alexandre Silveira, presente ao certame, afirmou que os negócios realizados ‘solucionam o problema de potência do sistema energético brasileiro’ e ressaltou que contratos via leilão costumam resultar em tarifas menores do que contratações emergenciais.
O fornecimento das térmicas contratadas terá prazo de 10 anos, enquanto as hidrelétricas foram contratadas por 15 anos. A negociação mede o pagamento aos geradores por megawatt disponível ao ano (R$/MW/ano).
Como o leilão funcionou
O certame abriu às 10h e se estendeu até cerca de 16h, com rodadas separadas por produto, cada uma correspondente ao ano de início do fornecimento. Foram ofertados seis produtos de termelétricas e dois de hidrelétricas no LRCAP nº 02. As regras definiram teto de preços diferenciados: R$ 2,9 milhões/MW/ano para térmicas novas (produtos 2028–2031), R$ 2,25 milhões/MW/ano para térmicas existentes (2026–2031) e R$ 1,4 milhão/MW/ano para hidrelétricas (produtos 2030–2031).
Resultados por rodada
- Produto Potência Termelétrica 2026 (início 1º/08/2026; 10 anos): termelétricas existentes a gás conectadas ao STGN e térmicas existentes a carvão. Preço corrente: R$ 2.205.220,10/MW/ano — deságio de 1,99% sobre o teto.
- Produto Potência Termelétrica 2027 (início 1º/08/2027; 10 anos): termelétricas existentes a gás (STGN) e carvão. Preço corrente: R$ 2.249.995,00/MW/ano — deságio de R$ 5,00/MW em relação ao teto.
- Produto Potência Termelétrica 2028 (início 1º/10/2028; 10 anos para existente e 15 anos para novo): térmicas novas ou existentes a gás e existentes a carvão. Preço corrente: R$ 2.718.999,37/MW/ano — deságio de 6,24%.
- Produto Potência Termelétrica 2029 (início 1º/08/2029; 10 anos para existente e 15 para novo): térmicas novas ou existentes a gás e existentes a carvão. Preço corrente: R$ 2.890.000,00/MW/ano — deságio de R$ 10,00/MW em relação ao teto.
- Produto Potência Termelétrica 2030 (início 1º/08/2030; 10 anos para existente e 15 para novo): térmicas a gás (novas ou existentes) e carvão. Preço corrente: R$ 1.395.000,00/MW/ano — deságio de 0,36% sobre o teto (valor aplicado segundo as regras do leilão).
- Produto Potência Termelétrica 2031 (início 1º/08/2031; 10 anos para existente e 15 para novo): térmicas a gás e carvão. Preço corrente: R$ 2.428.308,31/MW/ano — deságio de 16,27%.
- Produto Potência Hidrelétrica 2031 (início 1º/08/2031; 15 anos): ampliações de usinas hidrelétricas existentes. Preço corrente: R$ 1.400.000,00/MW/ano — sem deságio.
Vale observar que não houve rodada para ampliação de termelétricas com entrega em 2030.
Concorrência e inscrições
A Aneel havia informado em novembro que 330 projetos se inscreveram no LRCAP nº 02, totalizando 120.386 MW de capacidade ofertada — um universo que incluía 311 projetos de térmicas a gás natural, três a carvão e 16 ampliações hidrelétricas. Para o leilão complementar previsto para sexta-feira (LRCAP nº 03), dedicado a térmicas movidas a óleo diesel, óleo combustível e biodiesel, foram inscritas 38 propostas somando 5.890 MW.
Reação de setores e impacto tarifário
A Abrace Energia — associação que representa grandes consumidores — declarou apoio à realização do leilão para reforçar a segurança do sistema, mas defendeu um limite de contratação de 10 GW para evitar aumento de custos ao consumidor. A entidade estimou que a contratação de 10 GW teria impacto próximo de R$ 45/MWh na tarifa; se chegasse a 15 GW, o efeito estimado seria de cerca de R$ 67/MWh.
O governo e o ministério sustentam que a contratação via leilão reduz custos em comparação com contratações emergenciais, quando o preço da energia costuma ser bem mais alto. O ministro Alexandre Silveira afirmou ainda que este pode ser um dos últimos leilões do governo para energia não-renovável, sinalizando uma transição gradual do parque energético.
Próximos passos
O LRCAP nº 03, agendado para a próxima sexta-feira (20), deve contratar termelétricas a óleo diesel, óleo combustível e biodiesel. As usinas contratadas no certame desta quarta-feira começam a entrar em operação conforme os cronogramas dos produtos: a partir de 2026 (primeiras entregas) e até 2031 (últimas), com compromissos contratuais que se estenderão por até 15 anos no caso das hidrelétricas.
Especialistas do setor acompanham agora a formalização dos contratos e os efeitos nas tarifas nos próximos meses, além dos desdobramentos regulatórios e do potencial impacto ambiental associado à presença de termelétricas a carvão no pacote contratado.
Este leilão, adiado e debatido desde 2024, foi considerado por agentes do setor o mais aguardado do período e marca uma etapa importante na estratégia de garantia de capacidade do sistema elétrico brasileiro.





