Leilão histórico contrata cerca de 19 mil MW em térmicas e hidrelétricas e reforça reserva energética para a próxima década
Governo realiza o maior leilão de térmicas da história, negociando capacidade de usinas a gás, carvão e hidrelétricas para garantir segurança energética
O leilão de capacidade LRCAP nº 02, realizado em São Paulo nesta quarta-feira, contratou aproximadamente 19 mil megawatts de potência entre usinas termelétricas e ampliações hidrelétricas, em um certame que autoridades classificaram como histórico para a segurança do sistema elétrico brasileiro. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que o resultado resolve o problema de potência do país e que o evento foi “o maior leilão de térmicas da história desse país”.
O leilão, que começou às 10h e se estendeu até cerca das 16h, teve ofertas para produtos com início de suprimento entre 2026 e 2031. As térmicas contratadas incluem usinas a gás natural, algumas conectadas ao Sistema de Transporte de Gás Natural (STGN), e termelétricas existentes a carvão mineral. As hidrelétricas contratadas referem-se a ampliações por instalação de novas unidades geradoras em empreendimentos já existentes.
Como funcionou o leilão e prazos dos contratos
O LRCAP nº 02 organizou rodadas por ano de entrada em operação. As termelétricas contratadas terão fornecimento por 10 anos, enquanto as ampliações hidrelétricas têm contratos de 15 anos. O critério de negociação foi o valor pago aos geradores por megawatt disponível durante um ano.
O governo definiu tetos de preços por MW/ano: R$ 2,9 milhões para termelétricas novas (produtos 2028-2031), R$ 2,25 milhões para usinas existentes (produtos 2026-2031) e R$ 1,4 milhão para hidrelétricas (produtos 2030-2031).
Preços e resultados por rodada
- Produto Potência Termelétrica 2026 (início 1º de agosto de 2026, 10 anos): preço corrente de R$ 2.205.220,10 por MW/ano, deságio de 1,99% em relação ao teto.
- Produto Potência Termelétrica 2027 (início 1º de agosto de 2027, 10 anos): preço corrente de R$ 2.249.995,00 por MW/ano, deságio de R$ 5,00 por MW frente ao teto.
- Produto Potência Termelétrica 2028 (início 1º de outubro de 2028): preço corrente de R$ 2.718.999,37 por MW/ano, deságio de 6,24% em relação ao teto. Período: 10 anos para empreendimentos existentes e 15 anos para novos.
- Produto Potência Termelétrica 2029 (início 1º de agosto de 2029): preço corrente de R$ 2.890.000,00 por MW/ano, deságio de R$ 10,00 por MW em relação ao teto. Períodos iguais aos acima.
- Produto Potência Termelétrica 2030 (início 1º de agosto de 2030): preço corrente de R$ 1.395.000,00 por MW/ano, deságio de 0,36% sobre o teto. Contratos de 10 anos para existentes e 15 para novos.
- Não houve rodada para ampliações de termelétricas com entrega em 2030.
- Produto Potência Termelétrica 2031 (início 1º de agosto de 2031): preço corrente de R$ 2.428.308,31 por MW/ano, deságio de 16,27%.
- Produto Potência Hidrelétrica 2031 (início 1º de agosto de 2031, 15 anos): preço corrente de R$ 1.400.000,00 por MW/ano, sem deságio em relação ao teto.
Concorrência, inscrições e preocupações com impacto tarifário
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) registrou, em novembro, a inscrição de 330 projetos para o leilão desta quarta-feira, totalizando 120.386 MW de capacidade inscrita. Desse total, 311 projetos eram de térmicas a gás natural, três de térmicas a carvão e 16 de ampliações hidrelétricas. Para o próximo certame LRCAP nº 03, agendado para sexta-feira, foram inscritos 38 projetos somando 5.890 MW, entre termelétricas a óleo e a biodiesel.
Associações de grandes consumidores, como a Abrace Energia, apoiaram o leilão para reforçar a segurança do sistema, mas defenderam limites para evitar aumento excessivo de custos. A entidade sugeriu um teto de contratação de 10 GW para minimizar impactos tarifários: segundo sua estimativa, a contratação de 10 GW adicionaria cerca de R$ 45/MWh à tarifa, enquanto 15 GW elevaria o impacto para aproximadamente R$ 67/MWh.
Contexto e próximos passos
Este leilão era um dos mais aguardados pelo setor e havia sido adiado em 2024 em meio a debates e disputas judiciais. Em 2021, o primeiro LRCAP nº 01 já havia contratado 4,6 GW de disponibilidade de potência, equivalente a um terço da geração da usina de Itaipu Binacional.
O governo anunciou que os contratos firmados no LRCAP nº 02 e os previstos para o LRCAP nº 03 — voltado a térmicas movidas a óleo diesel, óleo combustível e biodiesel — devem fortalecer a flexibilidade do sistema energético nos próximos anos. O ministro Alexandre Silveira declarou acreditar que esse pode ser um dos últimos leilões de energia não renovável contratados pelo governo, ao mesmo tempo em que destacou o papel das térmicas contratadas em leilões competitivos para reduzir custos frente a aquisições emergenciais.
Analistas e representantes do setor acompanharão agora a formação dos contratos e os efeitos na cadeia de custos da energia, incluindo possíveis reflexos nas tarifas ao consumidor nos anos seguintes ao início dos fornecimentos.





