Israel e EUA teriam atacado quase 400 unidades de saúde no Líbano e no Irã — danos, mortes e acusações dividem relatos oficiais e ONGs
Governos falam em uso militar de ambulâncias e hospitais; Anistia, OMS e Cruz Vermelha relatam danos, mortes de profissionais de saúde e risco de colapso do atendimento
Relatos oficiais de diferentes países e verificações de organizações humanitárias apontam para dezenas — e, segundo Teerã, centenas — de ataques a unidades de saúde no Líbano e no Irã no contexto dos confrontos envolvendo Israel e aliados. As partes apresentam versões divergentes sobre causas e responsabilidades, enquanto agências afirmam que a infraestrutura de saúde está sob forte pressão.
Dados e números reportados
No Líbano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que profissionais e instalações de saúde vêm sendo repetidamente afetados por ataques desde o início da escalada, com a infraestrutura gravemente comprometida. O sistema libanês precisa tratar mais de 2,9 mil feridos pelo conflito, além dos pacientes em regime de atendimento contínuo ou em recuperação de ataques anteriores.
No Irã, o Ministério da Saúde informou que ataques atribuídos a Israel e aos Estados Unidos atingiram 313 centros médicos, hospitais, ambulâncias ou outros equipamentos do sistema de saúde, além de terem causado a morte de 23 profissionais da área. A Cruz Vermelha Iraniana reportou números similares: 281 centros e filiais afetadas e ataques diretos a 94 ambulâncias e veículos de resgate; segundo a entidade, 17 bases da organização foram atingidas.
A OMS, em levantamento mais conservador até 18 de março, havia reconhecido ataques a 20 unidades de saúde no Irã com nove mortos. As diferenças entre os números oficiais iranianos e o balanço da OMS refletem dificuldades de verificação em zonas de conflito e metodologias distintas de contagem.
Acusações, defesas e pedidos de provas
As Forças de Defesa de Israel (FDI) afirmam que o Hezbollah tem feito “uso militar extensivo” de ambulâncias e instalações médicas e que agirão contra o grupo caso essa prática persista. O porta-voz Avichay Adraee divulgou a versão em comunicado reproduzido pela imprensa israelense, afirmando que o uso de instalações de saúde para fins militares obrigaria os militares a retaliar esses alvos.
Organizações de direitos humanos pedem provas dessas alegações. A Anistia Internacional afirma que Israel não apresentou evidências públicas que sustentem as acusações e recorda episódios anteriores em que profissionais de saúde foram alvo. “Lançar acusações alegando que instalações de saúde e ambulâncias estão sendo usadas para fins militares sem apresentar qualquer prova não justifica tratar hospitais, instalações médicas ou transporte médico como campos de batalha, nem tratar médicos e paramédicos como alvos”, disse Kristine Beckerle, diretora regional adjunta da Anistia para Oriente Médio e Norte da África.
O governo dos Estados Unidos tem negado ataques deliberados a instalações civis no Irã. Em comunicado citado na cobertura, o secretário de Estado Marco Rubio ponderou que “efeitos colaterais” podem ocorrer durante operações militares — argumento usado em geral para justificar danos involuntários a infraestrutura civil durante ações militares.
Impacto nos serviços de saúde e acusações de estratégia deliberada
Especialistas e responsáveis por organizações humanitárias alertam para o efeito acumulado dos danos: hospitais com infraestrutura atingida, falta de insumos, ambulâncias fora de operação e profissionais mortos ou feridos reduzem a capacidade de resposta em crises. A OMS e autoridades locais relatam que a sobrecarga no Líbano já é significativa, com milhares de feridos a serem atendidos.
Para o jornalista e analista Anwar Assi, o elevado número de unidades de saúde afetadas no Irã e no Líbano sugere uma estratégia deliberada, não mero “efeito colateral”. “É um crime de guerra e pretendem, com isso, pressionar e aterrorizar a população civil, mostrando que eles vão atacar e não vai ter ninguém para ajudar eles”, afirmou. Assi também descreveu táticas de ataque indireto a prédios vizinhos que acabam por danificar hospitais e forçar evacuações.
Contexto regional: precedentes em Gaza e Cisjordânia
Os ataques a unidades de saúde têm precedentes recentes na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. A OMS registrou 931 ataques a unidades de saúde em Gaza desde 7 de outubro de 2023 e outros 940 incidentes envolvendo equipamentos e serviços de saúde na Cisjordânia. Na mesma série de confrontos, cerca de 991 profissionais de saúde foram mortos em Gaza e aproximadamente 2 mil ficaram feridos, segundo a organização.
Israel tem justificado ataques citando o uso de instalações médicas como supostos “escudos” por grupos armados, alegações negadas por organizações palestinas. As Forças de Defesa de Israel afirmam também que procuram respeitar o direito humanitário, alegando avisos prévios em operações para minimizar vítimas civis.
O impasse entre versões oficiais e dados de organizações humanitárias mantém aceso o debate sobre responsabilidades e a necessidade de investigações independentes. Enquanto isso, a população civil e os sistemas de saúde nas áreas afetadas enfrentam uma pressão crescente, com risco real de colapso em regiões já fragilizadas.





