Mulheres e meninas sofrem mais com desigualdade no acesso à água e saneamento: por que regiões Norte, Nordeste e áreas rurais ficam para trás e como isso amplia violência, escolaridade e renda
Relatório da ANA mostra cobertura elevada para água potável em termos nacionais, mas revela lacunas profundas no saneamento e impactos desproporcionais sobre mulheres e populações vulneráveis
Os dados mais recentes da Agência Nacional de Água e Saneamento Básico (ANA) apontam avanços importantes na implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 da ONU, que prevê abastecimento de água e saneamento universal até 2030. No entanto, as estatísticas também expõem desigualdades persistentes que atingem com maior intensidade mulheres, meninas e grupos historicamente excluídos.
Panorama nacional: alta cobertura de água, déficit em saneamento
Em 2023, 98,1% da população brasileira tinha acesso a água potável segura, segundo a ANA. Esse número, porém, mascara disparidades regionais e territoriais: em áreas rurais o índice cai para 88%, enquanto as regiões Norte e Nordeste registram 79,4% e 81,9%, respectivamente. O recorte racial também aponta menor acesso entre a população não branca.
Quando o tema é saneamento, a situação é menos favorável. Em 2023, apenas 59,9% da população contava com esgotamento sanitário seguro. Na Região Norte, esse percentual é de apenas 39,6%. O País trata 57,6% do esgoto gerado — o que significa que quase metade dos resíduos segue sendo descartada sem tratamento adequado, com impacto direto na saúde pública, no meio ambiente e na segurança hídrica.
Impacto desproporcional sobre mulheres e meninas
A ANA destaca que os efeitos da falta de serviços recaem de forma desigual: “Sem água na torneira, são elas as principais responsáveis pela coleta de água e pelos cuidados com a casa e com a família – tarefas que se tornam mais difíceis, demoradas e exaustivas quando faltam serviços adequados. Sobrecarregadas, ainda são expostas a graves riscos sanitários e de violência nesse contexto de vulnerabilidade”.
A ausência de água e saneamento também afeta a dignidade e a segurança — fatores que repercutem na capacidade de estudar e trabalhar. Para muitas famílias, são as mulheres que interrompem ou reduzem atividades remuneradas para buscar água ou cuidar de doentes em casa, ampliando a carga de trabalho não remunerado e limitando oportunidades econômicas.
Educação e futuro econômico: a ligação com saneamento
Especialistas ressaltam ainda a relação direta entre saneamento e educação. Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, lembra que o impacto se reflete em anos de estudo: “A escolaridade média hoje de uma criança que teve acesso ao saneamento é de 9,5 anos. Uma criança que não teve acesso ao saneamento é de 7,5 anos, ou seja, a criança que tem acesso ao saneamento, ela estuda dois anos a mais.”
Segundo Pretto, o perfil de quem não tem acesso ao saneamento concentra-se em pessoas pretas, pardas, indígenas, jovens até 20 anos, com baixa escolaridade e baixa renda — um ciclo que reforça desigualdades intergeracionais e limita o desenvolvimento econômico local e nacional.
Protagonismo feminino na gestão da água
Para a professora e ecopedagoga Vera Lessa Catalão, da Universidade de Brasília (UNB), a administração dos recursos hídricos precisa reconhecer o papel central das mulheres: “Elas que providenciam ou que reclamam do direito à água para lavar as roupas, para mandar seus filhos para a escola. Elas fazem uma gestão mais consciente da água, da importância da água como direito.”
Catalão defende que incluir mulheres nas decisões sobre uso e proteção da água não é apenas simbólico, mas essencial para políticas mais eficazes e sensíveis às necessidades reais de famílias em comunidades ribeirinhas, periferias e áreas rurais.
O que falta e por onde avançar
A ANA chama atenção para a necessidade de políticas integradas: “Não há mais espaço para tratar água, saneamento, clima e justiça social como agendas separadas. Garantir acesso seguro à água e ao esgotamento sanitário, fortalecer a gestão dos recursos hídricos e avançar na adaptação à mudança do clima são ações que precisam caminhar juntas”.
Entre os desafios apontados estão a expansão de redes de esgoto e tratamento, investimentos em infraestrutura em regiões mais afetadas, programas focados em equidade racial e territorial, e ações que reduzam a carga de trabalho doméstico imposta às mulheres. Especialistas também cobram maior planejamento para adaptar sistemas de abastecimento às mudanças climáticas e para ampliar a participação social — com ênfase no protagonismo feminino — na governança da água.
Sem avanços consistentes nesses pontos, a ANA alerta que o Brasil corre o risco de manter conquistas numéricas que ocultam falhas profundas: serviços básicos que não alcançam parcelas substanciais da população e perpetuam desigualdades de gênero, raça, renda e território.
Em suma, a meta de água e saneamento para 2030 passa não apenas por aumentar percentuais, mas por transformar quem está sendo deixado para trás em prioridade das políticas públicas.





