Dia Mundial da Água: entidades alertam perda de até 35% das reservas do Cerrado, queda de vazões em 88% das bacias e risco à Serrinha do Paranoá
Evento em Brasília reúne pesquisadores, organizações e moradores para discutir ameaças à segurança hídrica e mobilizar proteção de nascentes
No Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, uma coalizão de entidades socioambientais chamou atenção para a redução da disponibilidade hídrica no Cerrado, bioma reconhecido como “coração das águas” por alimentar importantes bacias brasileiras. Em Brasília, a campanha Cerrado Coração das Águas promoveu debate público e atividades para destacar dados científicos e riscos locais, como a situação da Serrinha do Paranoá.
Dados científicos e causas da perda hídrica
Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) apresentados durante o evento mostram que 88% das bacias hidrográficas analisadas no Cerrado registraram redução de vazão no período de 1985 a 2022. O estudo associa o declínio principalmente ao desmatamento e às mudanças no uso da terra, que alteram a infiltração, os ciclos de recarga de aquíferos e o regime de nascentes.
A pesquisa estima que o Cerrado pode perder até 35% de suas reservas de água até 2050 se as tendências atuais de conversão de vegetação e manejo territorial se mantiverem. Levantamentos do MapBiomas indicam que mais da metade da vegetação nativa do bioma já foi desmatada, o que reforça o alerta das organizações sobre a urgência de políticas de proteção e restauração.
Impactos do uso agropecuário e contaminação por agrotóxicos
Além da perda de volume, a qualidade da água também está ameaçada. Dados da Agência Nacional de Águas (ANA) apontam que quase 60% do consumo hídrico no país é destinado à irrigação e à pecuária, setores cuja expansão pressiona recursos e demanda mecanismos de gestão mais eficientes.
O uso crescente de agrotóxicos nas regiões do Cerrado tem sido relacionado à contaminação de mananciais, afetando populações tradicionais e comunidades ribeirinhas que dependem de fontes locais para consumo e subsistência. Entidades ressaltam a necessidade de monitoramento e restrições ao uso de produtos que contaminem aquíferos e cursos d’água.
Risco local: Serrinha do Paranoá e pressões por empreendimentos
Em Brasília, a campanha destacou a Serrinha do Paranoá — área com cerca de 119 nascentes que abastecem o Lago Paranoá — como ponto sensível. Organizações ambientais alertam para projetos que podem transferir 716 hectares da área, com valor estimado em R$ 2,3 bilhões, proposta aprovada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) e que poderia abrir caminho a futuros empreendimentos.
Autoridades locais e moradores afirmam que a possibilidade de fracionamento e de uso econômico intensivo da Serrinha coloca em risco a segurança hídrica da capital. O tema ganhou contornos políticos pela tentativa do governador do Distrito Federal de usar áreas como garantia para reforçar capital do Banco de Brasília (BRB) após prejuízos ligados a operações em benefício do Banco Master. A Polícia Federal investiga suspeitas de fraudes em operações de compra de créditos superiores a R$ 12 bilhões envolvendo empresário atualmente preso.
Mobilização, vozes locais e próximos passos
A mobilização no Eixão do Lazer reuniu diferentes gerações e atores: organizações como Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Instituto Cerrados, Rede Cerrado, WWF-Brasil, Funatura, IPAM e IIEB participaram da campanha. Isabel Figueiredo, coordenadora do Programa Cerrado no ISPN, destacou a importância de comunicação intergeracional: “Comunicar a importância do Cerrado para a segurança hídrica é um desafio intergeracional, uma linda ação.”
A professora Mercedes Bustamante, do Departamento de Ecologia da UnB, reforçou que o futuro sustentável do país passa pela proteção do bioma. No Festival das Águas, realizado também em Brasília, moradores como a musicista Martinha do Coco e a deputada Erika Kokay defenderam a preservação da Serrinha do Paranoá e anunciaram ações junto a instituições públicas e à sociedade civil para impedir a especulação imobiliária e garantir proteção legal da área.
As mensagens do Dia Mundial da Água em Brasília combinaram alerta técnico e apelo político: exigir fiscalização, frear o desmatamento, usar instrumentos jurídicos para proteger nascentes e implementar políticas de uso da água que priorizem a regeneração do Cerrado são medidas citadas como essenciais para manter a disponibilidade hídrica para as próximas décadas.
Colaboraram com a cobertura organizações e profissionais envolvidos na campanha Cerrado Coração das Águas e no Festival das Águas, que trouxeram estudos e relatos de comunidades para as atividades de hoje.





