Cientistas brasileiros ganham prêmios internacionais por avanços no diagnóstico do Alzheimer com testes de sangue e pesquisas sobre beta‑amiloide e tau
Pesquisadores da UFRJ e da UFRGS foram reconhecidos por estudos que avançam no entendimento da doença e na implementação de biomarcadores p‑tau217 para diagnóstico precoce
Dois laboratórios brasileiros receberam reconhecimento internacional por contribuições relevantes à pesquisa sobre a doença de Alzheimer. O professor Mychael Lourenço, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi premiado com o ALBA‑Roche Prize for Excellence in Neuroscience Research. O médico e pesquisador Wagner Brum, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), recebeu o prêmio Next “One to Watch” da Alzheimer’s Association, voltado a jovens cientistas promissores.
Por que a pesquisa é urgente
O Alzheimer é uma das maiores dificuldades da medicina contemporânea: não existe cura e poucos tratamentos conseguem retardar claramente a progressão da doença. Globalmente, estima‑se que cerca de 40 milhões de pessoas vivam com Alzheimer, e aproximadamente 2 milhões estariam no Brasil — número que pode ser subestimado por limitações de acesso a diagnóstico e cuidado.
Os sintomas mais conhecidos incluem perda de memória recente, que evolui para comprometimento de raciocínio, comunicação e capacidade de mobilidade, levando, em estágios avançados, à dependência total. Por isso, detectar a doença antes do aparecimento de sintomas significativos passou a ser meta central das pesquisas.
Avanços: do entendimento das proteínas ao diagnóstico por sangue
Desde a descrição original da doença por Alois Alzheimer, sabe‑se que o cérebro de pacientes acumula placas. Na década de 1980 foi identificado que essas placas contêm fragmentos da proteína beta‑amiloide; outra proteína associada, a tau, também está envolvida na formação de depósitos anormais.
Entender por que essas proteínas se acumulam — e por que algumas pessoas com depósitos amiloides permanecem cognitivamente saudáveis — é um dos objetivos do Lourenço Lab, fundado por Mychael Lourenço. A equipe estuda mecanismos de vulnerabilidade e resiliência ao Alzheimer, além de testar em modelos animais substâncias que possam reduzir o acúmulo de beta‑amiloide e tau ou aumentar a capacidade de degradação celular, como a atividade do proteassoma.
Paralelamente, pesquisas com biomarcadores no sangue ganharam destaque por oferecerem um caminho menos invasivo e mais barato que os exames tradicionais. Um dos biomarcadores mais promissores é a proteína p‑tau217, cuja presença e níveis no sangue correlacionam com o processo patológico do Alzheimer.
Do laboratório para a rotina clínica: o trabalho de Wagner Brum
Wagner Brum ajudou a desenvolver protocolos que tornam a medição de p‑tau217 em sangue mais confiável para uso clínico. Embora em muitos casos o exame ofereça uma resposta clara — com níveis muito altos ou muito baixos — há uma faixa intermediária, cerca de 20% a 30% dos casos, em que exames adicionais são necessários para confirmar o diagnóstico.
O protocolo de leitura e interpretação criado por Brum tem sido usado por laboratórios na Europa e nos Estados Unidos, mas a adoção no Brasil ainda é limitada a alguns laboratórios privados. Testes clínicos em andamento no Rio Grande do Sul visam avaliar se a introdução rotineira do exame melhora a confiança diagnóstica e altera condutas terapêuticas, passos essenciais para a incorporação no Sistema Único de Saúde (SUS).
Atualmente, os métodos mais precisos são a análise de líquor (colhido da coluna vertebral) e a tomografia por emissão de pósitrons (PET‑CT), ambos caros e pouco disponíveis. Um exame de sangue validado e padronizado promete ampliar o acesso ao diagnóstico precoce, o que pode permitir intervenções antes do dano cerebral irreversível.
Reconhecimento, desafios e financiamento
Os prêmios internacionais refletem a atenção da comunidade científica para o trabalho feito no Brasil. Lourenço e Brum destacam que parte das pesquisas é financiada por órgãos como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), a Fundação Serrapilheira e o Instituto Idor de Pesquisas.
Os pesquisadores também ressaltam a importância de gerar dados provenientes de populações locais. A maioria dos estudos sobre Alzheimer foi realizada no Norte Global, e diferenças genéticas, ambientais e de acesso à saúde podem afetar a prevalência, a apresentação clínica e a utilidade de biomarcadores na população brasileira.
Além de desenvolver testes, as equipes trabalham para entender fatores de risco modificáveis — que já foram associados a grande parcela dos casos de demência — e buscar estratégias que aumentem a resiliência cerebral frente ao envelhecimento e à acumulação proteica. Um exemplo citado por Lourenço é a presença de indivíduos muito idosos, como algumas celebridades brasileiras, que mantêm função cognitiva preservada apesar de idade avançada, o que levanta questões sobre mecanismos protetores.
O próximo passo: ampliar acesso e validar impacto clínico
Para que exames de sangue com biomarcadores entrem na rotina do SUS, serão necessárias evidências de que sua adoção melhora o diagnóstico e, sobretudo, muda o manejo clínico de pacientes de modo a trazer benefícios reais em saúde. Estudos em andamento no Brasil buscam justamente essa comprovação e a expansão das avaliações para outras regiões do país.
Enquanto isso, o reconhecimento internacional abre espaço para maior visibilidade à pesquisa nacional e pode facilitar parcerias e recursos que acelerem a tradução dos achados científicos em ferramentas práticas para detecção precoce e, eventualmente, prevenção da progressão do Alzheimer.
“É muito bom ver que a comunidade de pesquisa internacional presta atenção no que a gente faz e valoriza o que a gente faz”, disse um dos pesquisadores, destacando que há excelência em muitas áreas no país que merece visibilidade.
Os prêmios a Lourenço e Brum são um apontamento de que esforços brasileiros estão alinhados a uma corrida global para entender a doença e oferecer diagnósticos mais acessíveis e confiáveis — passos fundamentais para enfrentar um problema que tende a crescer com o envelhecimento populacional.




