Fome recua mais em lares do Bolsa Família chefiados por mulheres: estudo da FGV aponta quase 670 mil domicílios que deixaram a fome
Levantamento identifica vínculo entre controle feminino dos benefícios e melhora na segurança alimentar; programa segue como peça central na redução da fome no Brasil
Um estudo do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostrou que a redução da fome foi mais intensa em domicílios assistidos pelo Bolsa Família chefiados por mulheres. No intervalo de um ano, 946,6 mil domicílios atendidos pelo programa deixaram a condição de fome e passaram para a segurança alimentar; desses, quase 670 mil eram chefiados por mulheres.
Resultados da pesquisa
A pesquisadora Janaína Rodrigues Feijó, do Ibre/FGV, atribui o efeito ao padrão de uso da renda por parte das mulheres. “Elas gastam melhor os recursos dentro do lar, especialmente quando tem crianças”, afirma Janaína. A pesquisa cita estudos acadêmicos que apontam que, quando as mulheres controlam uma parcela maior dos recursos do domicílio, a composição do gasto tende a se deslocar para itens associados ao bem‑estar infantil e familiar — alimentação, saúde, educação e bens de consumo para crianças.
O levantamento também registra que, entre os lares que alcançaram segurança alimentar, 70,8% eram chefiados por mulheres e 61,4% (cerca de 581 mil domicílios) tinham como responsável uma mulher preta ou parda — evidenciando a importância do programa para populações historicamente mais vulneráveis.
Como funciona o Bolsa Família e alcance atual
O Bolsa Família é o principal programa de transferência de renda do país. O critério inicial de elegibilidade considera renda familiar mensal de até R$ 218 por pessoa. O benefício base é de R$ 600, com incrementos em casos de gravidez ou presença de crianças; o valor médio do benefício está em R$ 683,75, segundo a pesquisa.
Dados do Ministério da Cidadania (antigo MDS) indicam que, em março, o programa alcançará 18,73 milhões de famílias cadastradas, com gasto mensal estimado em R$ 12,77 bilhões. Em janeiro de 2026, 84,4% das famílias atendidas tinham a mulher como referência do domicílio.
Repercussão política e institucional
A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, acompanhou a divulgação do estudo e ressaltou a conexão entre combate à fome e desigualdade racial. “Não tem como pensar em combate à fome sem pensar em raça”, disse, lembrando que renda direta às mãos de mulheres em situação de vulnerabilidade tem impacto em educação e desenvolvimento infantil: “Ninguém estuda de barriga vazia”.
O ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias, destacou a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de priorizar mulheres como beneficiárias do cartão do programa. “Foi dele a ideia de que tinha que colocar o cartão nas mãos das mulheres”, afirmou, e acrescentou que a pesquisa mostra efeitos positivos em saúde, educação, condicionalidades e na própria renda familiar.
Contexto: saída do Brasil do Mapa da Fome e projeções sem o programa
No evento da FGV também foi lembrado que o Brasil saiu, em 2025, do chamado Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) — indicador que identifica países com mais de 2,5% da população em subalimentação grave. O país havia deixado o mapa em 2014, retornado em 2022 (com 33 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave) e, no biênio 2023‑2024, reduziu em 26,5 milhões o número de pessoas nessa condição, segundo o ministério.
A pesquisa da FGV também simula um cenário sem o Bolsa Família: sem o programa, a segurança alimentar entre os beneficiários cairia de 53% para 50,2% e a forma mais grave da fome subiria de 7,1% para 8,1%. Segundo os autores, esses resultados reforçam a importância de políticas públicas de transferência de renda, em especial quando voltadas a domicílios em maior vulnerabilidade social.
Em suma, o estudo aponta que a focalização do benefício em mulheres, além de ampliar efeitos imediatos sobre a alimentação, tem potencial para fortalecer o empoderamento feminino e o poder de decisão dentro das famílias, com impactos diretos na saúde, na educação e no combate às desigualdades raciais e de gênero.





