Alta de 12% no diesel em uma semana: FUP aponta aumentos abusivos, privatização da BR e choque no Estreito de Ormuz como causas da disparada
Dados da ANP mostram salto no preço do diesel S10; sindicato culpa repasses imediatos por privados e pede medidas após governo zerar PIS/Cofins e anunciar subvenção
Dados e impacto imediato nos postos
A Federação Única dos Petroleiros (FUP) informou que o preço médio do litro do diesel S10 subiu 12% entre a primeira e a segunda semana de março, com base em levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Na semana encerrada em 7 de março o litro custava, em média, R$ 6,15; na semana seguinte o valor passou para R$ 6,89.
No âmbito da cadeia de distribuição, a Petrobras reajustou o diesel A — vendido às distribuidoras — em R$ 0,38 no sábado 14, elevando o preço para R$ 3,65 por litro. A FUP alerta que, mesmo que a estatal tente mitigar oscilações, o repasse ao consumidor final fica sujeito a decisões de revendedores privados.
Medidas do governo e posição das empresas
Para conter a escalada, o governo federal anunciou medidas fiscais e de subsídio. No dia 12 o presidente Luiz Inácio Lula da Silva zerou as alíquotas federais do PIS e da Cofins incidentes sobre o combustível e autorizou subvenção de R$ 0,32 por litro a produtores e importadores. A União também propôs aos estados a isenção do ICMS sobre o diesel importado.
Apesar das ações, a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) afirmou que, naquele dia, o diesel vendido por refinarias da Petrobras estava 59% abaixo da paridade internacional — isto é, muito mais barato que o preço global equivalente. Desde 2023, a Petrobras adota política de preços que evita repasses automáticos ao mercado interno.
Privatização da BR Distribuidora e críticas da FUP
A FUP relaciona parte da responsabilidade à venda da antiga subsidiária BR Distribuidora, que passou ao controle privado da Vibra Energia. A venda incluiu licença para manutenção da marca BR até 28 de junho de 2029 e cláusula de non‑compete que limita a concorrência direta da Petrobras com a rede. Para o coordenador‑geral da FUP, Deyvid Bacelar, enquanto a Petrobras tenta proteger o país das oscilações internacionais, empresas privadas repassam imediatamente qualquer alta ao consumidor.
Bacelar também advertiu para efeitos em cadeia: aumento do diesel pressiona o frete, eleva o custo do transporte de cargas e, consequentemente, encarece alimentos e outros bens, contribuindo para a inflação.
Cenário internacional: Estreito de Ormuz e pressão sobre oferta
O contexto externo também pesa. O barril do óleo Brent, referência internacional, era negociado por volta de US$ 108 (aproximadamente R$ 564) na quarta‑feira em que os dados foram divulgados, um salto de cerca de 55% em um mês. A FUP e analistas vinculam parte do choque à escalada de tensão no Oriente Médio: uma ofensiva envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, e as retaliações iranianas, incluindo ameaças ao trânsito pelo Estreito de Ormuz — ponto por onde passam cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás.
O Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome, o que faz com que os reajustes internacionais se reflitam no mercado doméstico, mesmo com tentativas de mitigação pela Petrobras e medidas fiscais do governo.
Em síntese, a FUP atribui a alta recente a uma combinação de fatores: reajustes nas distribuidoras e postos, influência do mercado internacional e estrutura de comercialização após a privatização da BR. O governo aposta em cortes tributários e subvenção para segurar preços, mas especialistas e representantes sindicais advertiram que a solução exige coordenação entre política fiscal, proteção à oferta e controle de práticas de repasse por empresas privadas.





