Juíza Cria Projeto “Somos Marias” Contra Violência Doméstica no Litoral Paulista e Vence “Oscar da Justiça”
Iniciativa premiada oferece suporte multidisciplinar a vítimas e atua na reeducação de agressores, buscando romper o ciclo de violência.
A juíza Daniélle Camara Takahashi Cosentino Grandinétti, atuante no litoral de São Paulo, é a idealizadora do projeto “Somos Marias”, uma iniciativa que tem ganhado destaque nacional por seu trabalho no combate à violência doméstica e familiar. O projeto, que já completou sete anos de atuação em Peruíbe (SP), foi agraciado com o “Oscar da Justiça”, prêmio Innovare, por sua relevância e impacto social.
Atendimento Integral e Autonomia Financeira para Vítimas
O “Somos Marias” oferece um atendimento multidisciplinar completo às mulheres em situação de violência. O suporte abrange as áreas psicológica, assistencial e jurídica. Um dos pilares do projeto é a oficina de costura, que visa promover a autonomia financeira das vítimas. A ideia é que, ao conquistarem independência econômica, as mulheres tenham mais ferramentas para romper definitivamente o ciclo de violência, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade social.
João de Barro: A Reeducação de Autores de Violência
Com o objetivo de abranger toda a família, o projeto conta com o “João de Barro”, um braço dedicado à formação de grupos reflexivos para autores de violência doméstica. A meta é “blindar” o núcleo familiar e impedir que a violência se perpetue para as próximas gerações, uma característica conhecida como transgeracionalidade da violência.
Expansão e Humanização do Atendimento
Inicialmente concebido com uma sala de acolhimento dentro do Fórum, o “Somos Marias” expandiu suas instalações para a “Casa das Marias”, um espaço com arquitetura humanizada e acolhedora. Há planos para uma ampliação ainda maior com a criação do Centro de Enfrentamento à Violência Doméstica, que concentrará serviços de diversas áreas, incluindo a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) e o Conselho Tutelar, com a futura inclusão de atendimento médico voltado para a mulher.
A Origem do Projeto e a Mudança de Perspectiva da Juíza
A inspiração para o “Somos Marias” surgiu de um episódio marcante na carreira da juíza Daniélle Grandinétti: presenciar um agressor agredindo sua vítima no corredor do fórum. Esse evento a fez compreender a perversidade particular da violência doméstica, que atinge o corpo e a carne, e não apenas o patrimônio. A partir daí, ela entendeu que a violência doméstica não é um crime comum, mas sim um que se confunde com a vida privada e acontece no centro do lar. A criação da sala no fórum serviu como um catalisador para o desenvolvimento do projeto, impulsionado pelo senso de responsabilidade social.
A Força do Nome “Somos Marias” e o Reconhecimento da Sociedade
O nome “Somos Marias” foi escolhido por sua universalidade e força simbólica, remetendo a figuras históricas e culturais como Maria da Penha, Maria Felipa e Maria Quitéria. A intenção é que todas as pessoas, homens e mulheres, se identifiquem com a causa e se unam no grito por um basta à violência. A juíza enfatiza que, embora o projeto tenha sido nomeado em homenagem a diversas Marias, a história de Maria da Penha é fundamental para a evolução dos direitos das mulheres no Brasil. A juíza ressalta que, apesar de manter a imparcialidade exigida pela magistratura, ela não é neutra em relação à violência contra a mulher, reconhecendo a estrutura social, histórica e cultural que a perpetua.
O projeto “Somos Marias” demonstra a importância de ações judiciais que vão além da sentença, promovendo justiça social e buscando a transformação efetiva na vida das pessoas. A iniciativa de Peruíbe serve como modelo para outras comarcas e reforça o compromisso de magistrados engajados com a erradicação da violência doméstica no país.





