PF desvenda esquema de fraudes em licitações e compra de votos envolvendo deputado do Ceará e ex-prefeito foragido
Investigação aponta que grupo criminoso utilizava empresas para desviar verbas públicas e financiar campanhas eleitorais, com possível envolvimento de Júnior Mano e Bebeto Queiroz.
A Polícia Federal (PF) deflagrou uma operação que desvendou um complexo esquema de fraudes a licitações e financiamento de campanhas eleitorais no Ceará. Segundo as investigações, o grupo criminoso seria liderado pelo ex-prefeito de Choró, Bebeto Queiroz (PSB), que está foragido há mais de um ano, e pelo deputado federal Júnior Mano (PSB), pré-candidato ao Senado pelo estado. O esquema envolveria o desvio de recursos públicos para enriquecimento ilícito e compra de votos, além de garantir contratos para empresas aliadas.
Como funcionava o esquema de desvio de verbas e fraudes
De acordo com a PF, Bebeto Queiroz utilizava diversas empresas, muitas delas com contratos firmados com prefeituras do interior do Ceará, para desviar recursos. Essas verbas eram, posteriormente, utilizadas para enriquecimento pessoal e para financiar campanhas eleitorais de aliados, por meio de práticas como a compra de votos. Uma vez eleitos, os prefeitos apoiados pelo grupo direcionavam novos contratos para as mesmas empresas envolvidas no esquema, criando um ciclo vicioso de corrupção.
O relatório da PF cita pelo menos dez empresas suspeitas de participação. Uma análise da Controladoria-Geral da União (CGU) de 2025 indicou que nove dessas empresas receberam cerca de R$ 455,5 milhões de prefeituras cearenses entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025. A investigação aponta que o deputado Júnior Mano e o ex-prefeito Bebeto Queiroz operavam um esquema de distribuição de emendas parlamentares com cobrança de retorno financeiro.
Deputado e ex-prefeito como líderes do esquema
A PF indica que a estrutura montada por Bebeto Queiroz já existia antes da entrada de Júnior Mano. Com a participação do deputado, o esquema teria ampliado seu alcance, utilizando sua influência na captação de emendas para direcionar recursos a municípios estratégicos. Esses recursos serviriam para a cooptação política de prefeitos e a posterior manipulação de processos de contratação pública. O grupo ficava com uma porcentagem das emendas, variando entre 12% e 15% do valor, além de movimentar grandes somas de dinheiro através das empresas.
Conversas interceptadas revelam que Bebeto Queiroz orientava os supostos proprietários das empresas sobre valores a serem enviados para políticos aliados e negociava a compra de votos em eleições municipais, com valores entre R$ 200 e R$ 500. O político frequentemente mencionava que suas ações eram a pedido ou em favor de Júnior Mano, chegando a visitar gestores apoiados pelo grupo ou realizar transferências de dinheiro para pessoas indicadas pelo parlamentar. Um assessor de Júnior Mano, Adriano Almeida Bezerra, também é citado por intermediar a liberação de recursos e negociar percentuais.
Extensão do esquema e envolvidos
A investigação identificou uma lista com pelo menos 71 prefeituras do Ceará supostamente vinculadas ao deputado Júnior Mano. Em aproximadamente 50 dessas cidades, candidatos apoiados pelo grupo teriam sido eleitos. O município de Choró, base política de Bebeto Queiroz, era o centro das operações, mas a atuação se estendia por dezenas de municípios.
Além de Júnior Mano e Bebeto Queiroz, a PF cita outras 10 pessoas suspeitas de envolvimento, incluindo a irmã de Bebeto, Cleidiane Queiroz, apontada como gestora operacional do esquema, e Maurício Gomes Coelho, sócio-proprietário da MK Serviços, principal empresa do esquema, que movimentou mais de R$ 318 milhões. A empresa MK Serviços recebeu vultuosas somas de prefeituras como Pacajus, Canindé e Aquiraz. Nova Russas, cidade natal de Júnior Mano e onde sua esposa é prefeita, também aparece entre os municípios com maior volume de contratos com a MK Empreendimentos.
Reações e crimes investigados
A defesa do deputado Júnior Mano afirmou que a investigação da PF “nada encontrou de relevante contra o deputado” e lamentou o “vazamento seletivo de informações sigilosas”. A defesa de Bebeto Queiroz declarou que somente se manifestará nos autos. A PF aponta que os envolvidos cometeram crimes como organização criminosa com fins eleitorais, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica eleitoral e captação ilícita de sufrágio.
Júnior Mano já foi alvo de uma operação da PF em julho de 2025 sobre fraudes em licitações no Ceará. Bebeto Queiroz foi preso em novembro de 2024, antes de tomar posse como prefeito de Choró, mas foi solto e está foragido desde então. A PF considera o modelo de recebimento de recursos de emendas e empresas que depois repassam lucros para aliados como um “esquema de perpetuação do poder”.





