Avanço da ‘machosfera’ e a urgência de ações
O sofrimento masculino, muitas vezes silenciado e não tratado, é um dos motores que impulsionam a ascensão da chamada “machosfera”, um universo online de grupos e páginas que, embora abordem temas de masculinidade, frequentemente propagam discursos misóginos e violentos. Essa rede, que promete soluções mas entrega isolamento e hostilidade, tem sido alvo de atenção, especialmente após recentes mobilizações que incitam violência contra mulheres, como a trend “caso ela diga não”. A Polícia Federal já iniciou investigações sobre vídeos com esse teor.
Saúde mental masculina como chave para a segurança feminina
Gallianne Palayret, representante da ONU Mulheres no Brasil, defende que o sofrimento masculino, embora seja um fator de tração para a “machosfera”, não pode servir de justificativa para a misoginia. Em entrevista, Palayret ressaltou a importância de criar espaços seguros para que meninos e homens possam expressar suas inseguranças sem serem expostos a discursos de ódio. “O que funciona melhor, das iniciativas que vemos no mundo, é oferecer suporte real. Redes de pertencimento, de saúde mental para meninos, de educação emocional, modelos de masculinidade que não dependem de controle sobre mulheres”, afirmou. Ela enfatiza que a melhoria da vida de meninos e homens resulta em um ganho coletivo, aumentando a segurança e a liberdade das mulheres.
Cooperação e regulação contra a violência digital
Para combater a disseminação de conteúdos violentos contra mulheres nas redes, Palayret aponta para a necessidade de uma cooperação robusta entre governo, empresas de tecnologia e sociedade civil. Ela reconhece, contudo, os desafios na regulação desses perfis e comunidades, citando a facilidade de criação de novas páginas e os interesses financeiros das plataformas, que muitas vezes lucram com conteúdos extremos que atraem grande atenção, especialmente de jovens. A advogada francesa, que lidera a ONU Mulheres no Brasil desde janeiro, defende o fortalecimento de marcos legais contra a violência digital, a cobrança por transparência das plataformas e a educação digital da juventude para que aprendam a identificar discursos de ódio e manipulação.
Adaptação de lei internacional e o contexto brasileiro
Em discussão com o governo brasileiro, está a adaptação da Lei Modelo Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Digital de Gênero contra as Mulheres. Este instrumento jurídico internacional, lançado pela Organização dos Estados Americanos (OEA), orienta os países das Américas na criação de leis específicas para crimes virtuais. A iniciativa ganha ainda mais relevância diante do alarmante cenário brasileiro, que registrou um recorde de 1.470 feminicídios em 2023, conforme dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, evidenciando a urgência de medidas eficazes contra a violência de gênero em todas as suas formas.





