Ato na Reitoria e Apelo por Educação para a Sobrevivência
Em um protesto marcado pela urgência e pela dor, alunos do tradicional Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, se manifestaram em frente à reitoria da instituição. O estopim para a mobilização foi o recente caso de estupro coletivo contra uma aluna, que expôs a fragilidade e a necessidade de um debate mais robusto sobre violência de gênero e educação sexual nas escolas. A reivindicação dos estudantes é clara: aulas que preparem para enfrentar e identificar a violência sexual e de gênero.
Ana Belarmino, porta-voz dos grêmios estudantis que organizaram o ato, destacou a importância de um conhecimento prévio sobre os tipos de violência. “Se existisse, de fato, esse conhecimento, a gente não teria uma aluna sem saber se tinha sido abusada ou não”, afirmou, sublinhando a necessidade de os alunos conhecerem seus corpos e os limites da violência sexual.
Pressões Políticas e o Silenciamento do Debate
Segundo os estudantes, o debate sobre esses temas tem sido silenciado no Colégio Pedro II, em parte por pressões de movimentos como o “escola sem partido”, que atacam o pensamento crítico e laico. A estudante Ana Belarmino relembrou episódios anteriores, como a invasão da escola por parlamentares em 2019 em busca de material didático considerado “político”, que não resultou em nenhuma descoberta criminosa. “Não podemos ter movimentos reacionários que forçam um silenciamento do Colégio Pedro II sobre temas que implicam a sobrevivência ou não de mulheres”, declarou.
Cobrança por Política Contra Assédio e Atrasos Institucionais
Além da demanda por aulas sobre gênero e sexualidade, os estudantes cobraram a implementação de uma política contra o assédio moral e sexual, aprovada em 2025, mas que somente na véspera do protesto, na segunda-feira (9), viu a reitoria criar, por norma interna, uma comissão para lidar com casos de assédio, importunação sexual, discriminações e racismo intramuros.
A professora Priscila Bastos, representante do sindicato dos servidores, lamentou a demora e a falta de preparo da escola para lidar com o assédio. Segundo ela, as denúncias eram tratadas como “falta de urbanidade” e levavam anos para serem apuradas, com entraves burocráticos criados pela reitoria. A recém-criada comissão ainda precisa ter seus membros eleitos e estabelecer regras de atendimento e apuração.
Apoio de Pais e a Luta por Políticas Públicas
Pais e responsáveis, organizados no Coletivo Resistência, também apoiam a criação de uma política ampla contra o assédio. Maíra Arêas, representante do coletivo, ressalta que a violência contra meninas e mulheres não é um caso isolado no Pedro II, mas ecoa em todas as instituições de ensino. “A sociedade precisa dar um basta e, nesse caso, isso precisa vir de cima para baixo”, defendeu, clamando por políticas públicas estaduais e federais que garantam a proteção de todos os estudantes e combatam o machismo, que ela descreve como “a base do sistema capitalista e um modelo de dominação”.
Posição da Reitoria e a Continuidade do Debate
Em nota enviada à imprensa, a reitoria do Pedro II afirmou que o enfrentamento e a prevenção de violências são temas tratados com seriedade pela gestão, com ações de acolhimento, prevenção e apuração de condutas inadequadas desde janeiro de 2026. A instituição garantiu que “não há silêncio institucional” e que o tema “é caro a toda comunidade escolar e sempre foi tratado com a devida seriedade pela gestão”. Contudo, a mobilização estudantil e o apoio de pais e professores indicam que a luta por medidas efetivas e um debate aberto sobre gênero e segurança nas escolas está longe de terminar.





