Um reencontro para celebrar a amizade dos tempos de escoteiros do Colégio Marista, entre as décadas de 1970 a 1990, e matar a saudade, resgatando as muitas lembranças, as muitas histórias vividas, os aprendizados e os muitos momentos felizes. Porém, um dia de reencontro acabou se multiplicando e virando mais encontros. Histórias, vivências e narrativas compartilhadas. Memórias preservadas, que transmitem valores, conectam gerações, fortalecem o pertencimento e a identidade cultural, celebram e guardam afetos, incentivam a criatividade e a empatia.
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A ideia foi de alguns amigos, membros remanescentes do grupo Escoteiros Marista que na época contava com dezenas de participantes. Arildo Fereguetti Júnior, Jader Cristo e João Ricardo Serafim foram escoteiros contemporâneos, e depois que saíram continuaram mantendo contato, e hoje estão à frente do “Grupo Cinquentenário José Gaspar De Martin”, e querem resgatar os bons momentos.
“Estamos todos mais velhos agora, todos cinquentões, e não esquecemos o que vivemos. Criamos o grupo no final de 2023, para matar a saudade daquele tempo maravilhoso, e que tem o nome em homenagem ao professor que a gente considerava o paizão de todo mundo, que todo mundo amava e respeitava. Na hora que precisava de uma palavra, ele estava ali junto, era nossa referência. Foi quem abraçou o escotismo e liderou o grupo por quase 50 anos. Ele faleceu em 2015”, lembra Arildo Júnior.
O grupo Escoteiros Marista foi fundado em 21 de agosto de 1966, pelos irmãos Antonio Gava e Leonardo Machado. “Em 2026 o grupo faz 60 anos, nós não participamos mais, mas muita gente bacana passou por ele, e com certeza, guarda ótimas lembranças. Era muita coisa legal que fazíamos como equipe e não dá para esquecer”, disse Arildo que participou antes de ir para o Exército, no Rio de Janeiro, onde serviu de 1990 a 1993, como paraquedista do 25º Batalhão de Infantaria.

Aprendizado
O empresário e ex-fisiculturista Jader Cristo lembra que começou como escoteiro na enchente que ocorreu em Colatina em 1979 arrecadando doações de mantimentos para os desabrigados. “O Colégio Marista era o ponto de referência das entregas na época, que também tinha o grupo das Bandeirantes, que eram umas 20 meninas com as mesmas funções dos meninos”.
Segundo ele, os escoteiros se confraternizavam com os grupos Cruzeiro do Sul (Vitória) e o Barão de Tefé e Garoto, os dois de Vila Velha. “O do Marista é o segundo criado no Espírito Santo, depois do Barão de Tefé. Eram muitas as boas ações com mais de 100 participantes, entre lobinhos, seniores e pioneiros, a maioria alunos do Marista, entre 7 e 18 anos, mas também de outras escolas. Alziro Stein Júnior, Valdir Santa Rosa, Alberto Farias Gavine, Daniely Caprote e Alberto Chow, são alguns de nossos amigos da época”, conta.
João Ricardo Serafim, também era aluno do Colégio, ingressou em 1983 aos 15 anos, a convite de Gaspar, e logo tornou-se um líder do grupo. Além de Gaspar, ele lembra também dos chefes João Comério, Antônio Carlos da Silva Xavier (Colê), Osmário dos Santos Simões (Tala), Oscimar dos Santos Simões (Tizil), Welber Dalla Bernardina (Gordo) e Rogério Marcos Casteluber (Délio).
Ele permaneceu até os anos 90, mas não se desligou totalmente pois continuou frequentando algumas atividades e mantendo os amigos. “Agora, nós voltamos para participar, e acampar em um dos nossos locais da época, passando a congregar ali os ‘órfaos’ do antigo grupo. São muitos os eventos e as histórias da época marcantes para mim. A nossa máxima era deixar para trás apenas saudades”, disse.
Entre as muitas histórias, ele lembra de uma com a Tropa Sênior (15 a 18 anos) chefiada por Délio Casteluber, que construiu uma ponte sobre o rio Santa Joana, no distrito de Itapina, próxima à área que nós acampávamos muito em Pontal de Santa Joana, na propriedade do seu Hermenegildo Binda, o ‘Tio Gildo’. A tropa não desmontou a ponte no final da atividade, a pedido dele para que os moradores pudessem usar. E nós deixamos. Ela foi construída para durar uma semana e foi usada por um bom tempo até se deteriorar”.
Arildo Júnior conta que depois que saiu do Exército e retornou para Colatina, o grupo do Marista tinha paralisado as atividades, e aí ele então assumiu o grupo das Bandeirantes. Em seguida foi convidado para ir para o “Cadete Mirim”, criado por Wellington Tozzi e Jader, onde ficou bastante tempo. Retornou para o Bandeirantes, e em 2015 para os escoteiros, onde ficou um ano e saiu. “Fazíamos muitas atividades, era muito aprendizado. A maioria era em contato com a natureza, nos acampamentos que aconteciam sempre. Nos campos de equipe, a gente fazia as nossas pioneirias (montagem de estruturas com pedaços de madeira, amarrações e nós com cordas, e outros materiais). Aprendíamos a trabalhar em equipe, tinha jogos e muita música. Eram vínculos de amizade, vontade e alegria imensas, muito divertido. Sinto muita saudade”.
Na época, as duas áreas preferidas para acampar eram nas terras do Gildo Binda, em Pontal de Santa Joana, e outra era próxima à propriedade de Michel Salume em Terra Alta (indo para Linhares). Caminhadas longas também eram feitas.

Escotismo
“Quem foi escoteiro nunca mais esquece o que viveu e aprendeu. Foi marcante na minha vida, pois boa parte dos ensinamentos que recebemos levamos para a vida toda. O contato com a natureza não tem preço, ninguém esquece. O escotismo não é só sobre fazer nós, é também presenças do espírito de união, de preservação da natureza e muito mais. Significa amar a natureza, respeitar os colegas, é sobre qualidade de vida. Propõe um estilo de vida, pois ele transforma vidas”, afirma.
O escotismo é um movimento utilizado na educação para a formação e desenvolvimento dos jovens criado em 1907 pelo inglês Robert Baden-Powell, que aliou os elementos e os princípios de solidariedade, camaradagem, iniciativa, coragem e autodisciplina presentes na sua vida militar, quando serviu ao Exército, com experiências ligadas à vida no campo e sobrevivência na selva e no mar, saberes e habilidades que aprendeu em suas viagens à Índia e à África.
Fazem parte das etapas, e de evolução e formação do chefe escoteiro, o anel de Gilwell e a insígnia da madeira. O anel e a insígnia são parte fundamental do treinamento e progressão de um chefe, representando a conclusão de uma etapa de formação avançada e o compromisso com o movimento. O anel (nó de cabeça de turco) é usado no lenço, e a insígnia é o colar com contas que indica o nível de capacitação do adulto.

Encontros
E agora eles estão de volta. Não por acaso, a ideia de resgatar aqueles tempos começou com o próprio Arildo, que há dois anos passou a morar no sítio “Asas de Prata”, que adquiriu na mesma região que traz as boas lembranças daquele tempo. O nome é em homenagem aos seus tempos de Exército. “Fizemos alguns encontros, acampando em Pontal, o lugar da nossa memória afetiva, que traz boa energia, ótimas lembranças. Passamos a madrugada no relento conversando, em meio à natureza, e até dormimos no relento. A gente nem vê o tempo passar”.
Hoje, eles participam acompanhados por suas famílias. A esposa de Jader, Vera, participa ativamente. A esposa de Arildo, Elza, foi condecorada com o Brasão como “Escoteira honorária”. Também tem os convidados ex-escoteiros, que moram em Vitória e na Bahia. “Montamos barracas, mesas para os alimentos e os banheiros químicos, fazemos as pioneirias, as amarras com bambu e sisal. Com certeza, mais encontros virão. Queremos que outros amigos ex-escoteiros participem com a gente, pois afinal somos todos irmãos de lenço”, completa.
(Jader Cristo faleceu no dia 25 de janeiro de 2026 e esta matéria já estava escrita, por isso em homenagem a ele ela foi mantida como estava)





