Avanço Diplomático Ignorado
Analistas em geopolítica e relações internacionais avaliam que a recente ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, a segunda em oito meses, vai além do pretexto de impedir um programa nuclear iraniano. Segundo especialistas consultados pela Agência Brasil, o objetivo principal seria promover uma “troca de regime” em Teerã, visando conter a crescente influência econômica da China na região e, ao mesmo tempo, solidificar a hegemonia política e militar de Israel no Oriente Médio.
A professora Rashmi Singh, da PUC Minas, destaca que os ataques ocorreram em um momento em que um acordo diplomático para limitar o programa nuclear iraniano estava próximo. O ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr bin Hamad Albusaidi, mediador das negociações, revelou que o Irã havia concordado em não estocar urânio enriquecido, material essencial para a fabricação de armas nucleares. “Os EUA e Israel entraram em guerra quando um avanço diplomático e a paz estavam ao alcance. Então, por que agora?”, questiona Singh, sugerindo que ambos os países veem o Irã enfraquecido e buscam instalar um governo mais alinhado a seus interesses.
Contenção da China e Rivalidades Regionais
Robson Valdez, do IDP, reforça que a justificativa de “contenção nuclear” é pouco provável. Para ele, o conflito está intrinsecamente ligado à disputa pelo equilíbrio de poder no Oriente Médio e à tentativa de conter a influência regional do Irã. “Isso pode afetar especialmente a China, grande importadora do petróleo iraniano, que passa ali pelo Estreito de Ormuz”, pondera Valdez, mencionando também a rivalidade tradicional entre Israel, Turquia, Irã e Arábia Saudita.
O cientista político Ali Ramos acrescenta que, sem a derrubada do governo iraniano, Israel não garante sua supremacia estratégica regional. “O Irã é o coração do mundo no projeto geoeconômico chinês”, afirma Ramos, argumentando que um Irã alinhado ao Ocidente serviria como “cabeça de ponte” para sabotar projetos de infraestrutura chineses na Ásia Central. Rodolfo Queiroz Laterza, historiador, vê a ação como uma tentativa de retirar o Irã da rota econômica e comercial que China e Rússia constroem na Eurásia, inserindo o conflito na “guerra comercial” global.
Projeção de Israel e Críticas ao Imperialismo
Mohammed Nadir, da UFABC, descarta as justificativas oficiais de “ameaça nuclear” e vê a guerra como uma estratégia para impedir o surgimento de uma potência regional que desafie a hegemonia de Israel. “Esta guerra não é uma guerra americana, mas é uma guerra de Benjamin Netanyahu e, por extensão, de Israel”, declara Nadir, lembrando o precedente da invasão do Iraque pelos EUA em 2003, justificada por armas de destruição em massa que nunca foram encontradas.
Roberto Goulart Menezes, da UnB, aponta que o programa nuclear iraniano tem sido usado como pretexto pelos EUA há décadas, apesar de o Irã ser signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear e estar aberto a inspeções. Ele descreve a política dos EUA como “imperialista” e “agressiva”, visando redesenhar o mapa geopolítico do Oriente Médio para servir aos seus próprios interesses, subordinando países periféricos. O conceito de imperialismo, explica o sociólogo Raphael Seabra, se refere justamente a essa dominação exercida por um país central sobre nações periféricas.
Contexto Histórico e Econômico
A tensão entre EUA, Israel e Irã remonta à Revolução Islâmica de 1979. Desde então, o Irã, quinto maior produtor de petróleo do mundo, tem sido alvo de sanções econômicas. A decisão dos EUA de abandonar o acordo nuclear de 2015 e as exigências de Trump – desmantelamento do programa nuclear e de mísseis, e fim do apoio a grupos como Hamas e Hezbollah – intensificaram as hostilidades. A proximidade do acordo mediado por Omã, que previa a não estocagem de urânio enriquecido, torna os ataques ainda mais questionáveis sob a ótica de uma busca por paz.





