O uso de símbolos infantis por adultos e, ao mesmo tempo, a exposição precoce de crianças a comportamentos adultos revelam uma tendência preocupante da sociedade contemporânea. A avaliação é da psicanalista Fabiana Guntovitch, especialista em comportamento, que alerta para os riscos da chamada infantilização de adultos e da adultização infantil — dois movimentos distintos, mas que têm em comum a quebra do tempo natural de desenvolvimento.
Segundo a especialista, vídeos recentes de adultos usando chupetas, que circulam nas redes sociais, são um exemplo de como alguns recorrem a elementos ligados à infância como forma de lidar com pressões emocionais. “Quando adultos utilizam objetos que remetem à primeira infância, estamos diante de um movimento de regressão. É uma tentativa de buscar conforto e segurança em meio às tensões da vida adulta”, explica.
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No sentido inverso, observa-se cada vez mais a adultização de crianças: meninas usando salto alto, maquiagens elaboradas, participando de coreografias sensuais ou assumindo responsabilidades emocionais que não condizem com a idade. “A criança empurrada para papéis adultos constrói um ‘falso self’, aparentando maturidade precoce, mas sem ter elaborado etapas essenciais do desenvolvimento. Isso cobra um preço alto na adolescência e na vida adulta”, alerta Fabiana.
Para a psicanalista, apesar de parecerem opostos, os dois fenômenos estão conectados. “No primeiro caso, o adulto volta atrás em busca de alívio. No segundo, a criança é forçada a avançar antes do tempo. Em ambos, há sofrimento e perda de algo fundamental: viver plenamente cada fase da vida”, ressalta.

Fabiana ainda destaca que a cultura atual, que glamouriza a maturidade precoce das crianças e estetiza a regressão de adultos, fragiliza os papéis familiares e pode gerar impactos emocionais por gerações. “O desafio está em resgatar o valor de cada etapa: permitir que crianças sejam crianças, com espaço para brincar e fantasiar, e que adultos assumam responsabilidades sem abrir mão de espaços saudáveis de cuidado e descanso”, conclui.





