A humanidade já superou epidemias devastadoras, desenvolveu vacinas eficazes e acumulou conhecimento sobre prevenção e transmissão de agentes infecciosos. Ainda assim, a desinformação segue como um dos principais obstáculos da saúde pública moderna.
Neste contexto, o médico infectologista Eduardo Toffoli Pandini reflete sobre os cuidados necessários atualmente, o impacto da comunicação correta na adesão às vacinas e as lições deixadas por epidemias históricas.
* Quais são hoje os principais cuidados que todos devem ter para se proteger de doenças infecciosas, mesmo com a disponibilidade de vacinas?
Com o conhecimento que temos hoje sobre os mecanismos de transmissão das doenças infecciosas, além da adesão ao calendário vacinal, é importante a higiene das mãos, a ingestão de água filtrada, o uso de proteção (preservativo, PrEP ou outros) durante relações sexuais, e o uso de máscaras quando se estiver diante de pessoas com sintomas respiratórios. Também é recomendável manter ambientes arejados para evitar a circulação de vírus respiratórios.
* Em tempos de desinformação, como você avalia a importância do diálogo entre médicos, pacientes e sociedade para incentivar a vacinação?
Uma das lições que a pandemia de COVID-19 nos ensinou é sobre a importância da comunicação adequada entre os profissionais de saúde e a sociedade, incluindo pacientes. Fake news circulam muito rápido e podem minar a confiança das pessoas em medidas que são seguras e eficazes, como a vacinação e o uso de máscaras, por exemplo. Nem sempre conseguimos nos comunicar de forma adequada com a população, ouvir suas principais preocupações e esclarecê-las para evitar que caiam nas explicações simplórias dos negacionistas, e isso cobrou seu preço em vidas.
* De que forma eventos históricos, como a Revolta da Vacina ou epidemias devastadoras, ajudaram a moldar a percepção pública sobre imunização?
A imunização tem sido atacada desde que surgiu como estratégia de saúde pública, ainda no século XVIII, curiosamente com argumentos que lembram muito os de hoje. Diziam que a primeira vacina contra a varíola, criada a partir da varíola bovina, transformaria as pessoas em vacas, por exemplo. Felizmente essa nunca foi a opinião prevalente, especialmente depois que os seus benefícios ficaram evidentes. Napoleão e George Washington incentivaram seus soldados a se vacinarem, justamente porque um exército saudável ganha guerras. A Revolta da Vacina, que aconteceu em 1904 no Rio de Janeiro, é conhecida mundialmente como um exemplo do que acontece quando a imunização é partidarizada e não é acompanhada por campanha informativa adequada. Inflamada por grupos políticos que se opunham à república, a população carioca se revoltou contra o que foi visto como mais uma medida autoritária. Tragicamente, poucos anos depois da revolta houve uma grande epidemia de varíola no Rio de Janeiro com mais de 6 mil mortes, e aí as pessoas fizeram fila para se vacinar. Normalmente esse é o padrão: quando as pessoas percebem que uma doença é uma ameaça grave à sua saúde elas correm para se vacinar, mas quando essa ameaça é minimizada ou quando as pessoas começam a acreditar que a vacina é mais perigosa do que a própria doença, elas resistem. Vimos isso claramente na epidemia de febre amarela em 2017-2018 e na COVID-19.
* Que lições as grandes epidemias do passado, como a Peste Negra, podem nos ensinar sobre prevenção e proteção coletiva hoje?
Na época das epidemias da Antiguidade e da Idade Média não se conhecia o real mecanismo de transmissão das doenças infecciosas, mas isso não impedia que as pessoas tentassem medidas para controlá-las, por tentativa e erro mesmo. Abrir valas coletivas e cobrir os cadáveres com cal era uma medida comum. Alguns anos depois da Peste Negra, os venezianos implantaram a primeira quarentena, só permitindo que os navios entrassem nas cidades sob seu controle depois de alguns dias, justamente para garantir que ninguém dentro do navio estivesse infectado. Essa preocupação com a transmissão de doenças já existiam séculos atrás, e continua até hoje. E sabemos que fake news também acompanham epidemias desde essa época. Durante a Peste Negra, por exemplo, corria a história de que os judeus estavam envenenando poços de água por toda a Europa e essa seria a origem da doença. Por causa desse boato, milhares de judeus foram linchados nas cidades europeias. Mais recentemente, durante a Gripe Espanhola, o que se dizia era que a doença estava sendo espalhada pelo mundo pelos submarinos alemães durante a guerra ou pelos comprimidos de Aspirina.





